-
-
- No PT sob a bandeira do
- Socialismo
Revolucionário
Retornamos ao PT num momento em que não poucos pensam até em sair. Grande
parte das razões que nos trouxeram de volta tem a ver com a história e as
origens do partido. Muito pouco tem a ver com a situação em que o partido se
encontra hoje.
Nós que vivemos e ajudamos a construir o PT das origens retornamos para
ajudar na luta para resgatá-lo. Militamos no PT sob a bandeira do socialismo
revolucionário que inspirou milhares de ativistas no passado e continua
sendo a única alternativa real ao capitalismo em crise.
A história e as origens do partido não são coisa do passado apenas. Tem
conseqüências que teimam em persistir. Não é por acaso que a candidatura de
Lula foi o instrumento utilizado por milhões de trabalhadores na luta para
derrotar FHC em 1998. Nos dias de hoje, o PT continua sendo a grande
referência para quem não agüenta mais esse governo FHC/FMI e quer fazer algo
para derrotá-lo. Tudo isso apesar dos erros, da lentidão e vacilações do
partido.
A novidade que foi o PT na sua origem é algo que muitos trabalhadores e
militantes de esquerda tentam construir hoje, em várias partes do mundo,
como alternativa ao fracasso da social-democracia e do stalinismo. Um
partido de massas da classe trabalhadora, construído pela base, forjado nas
lutas, classista e anti-capitalista.
O PT já foi parecido com isso um dia. Mesmo com todas as ambigüidades e
contradições que vêm desde o nascedouro, o partido construiu um perfil
combativo que ainda não desapareceu apesar do enorme esforço da sua direção
majoritária em renegar na prática (e ás vezes até no discurso) essa
trajetória.
Nossas razões para voltar, portanto, tem muito mais a ver com a forma como
os trabalhadores mais conscientes ainda vêem o partido, do que com a maneira
com que a direção partidária encara o papel jogado por esses mesmos
trabalhadores.
A defesa da independência de classe, da luta direta como caminho
privilegiado, do socialismo como perspectiva. O papel jogado na organização
de algumas das lutas mais importantes da história da classe trabalhadora
brasileira. Tudo isso esteve na base da construção do PT como grande partido
de massas.
Porém, o PT que nasceu como novidade na esquerda mundial, em poucos anos
ficou muito parecido com a esquerda tradicional. A direção do partido tirou
as conclusões erradas dos efeitos do colapso do stalinismo e da nova
situação mundial criada a partir dos anos 90.
Quando mais se precisava de uma esquerda combativa, enraizada nos movimentos
de massas e claramente anti-capitalista - ou seja, o oposto do stalinismo e
da social-democracia - mais o PT se aproximou da esquerda tradicional,
adaptada ao sistema, burocratizada e eleitoralista, que estava ruindo junto
com os regimes do Leste e os governos social-neoliberais da Europa.
A crise estrutural do capitalismo mundial não deixa alternativas. Ou se
governa com uma clara perspetiva anti-capitalista, usando as instituições da
burguesia como instrumento à serviço das lutas, ou se governará dentro da
lógica do sistema. E, hoje, isso significa cortar gastos públicos,
privatizar, cumprir os "compromissos" com os sistema financeiro
internacional, etc.
Hoje, mais do que nunca, vemos que não há saída capitalista para a crise do
capitalismo. Mesmo a defesa da chamada soberania nacional ou a política de
integração soberana na globalização, não passa de jogo de palavras se não
estiver vinculada com uma alternativa que rompa com a lógica capitalista
vigente.
E, é claro, só será possível romper com a lógica capitalista unindo as lutas
dos trabalhadores dos diferentes países. A globalização das lutas tem que
ser a resposta do PT à globalização dos ataques da burguesia sobre os
trabalhadores e oprimidos em todo o planeta.
Hoje, com a crise do ex-todo poderoso neoliberalismo, o papel do PT não é
requentar supostas alternativas nacional-desenvolvimentistas. Um programa
socialista não se coloca hoje apenas como horizonte longínquo ou mera
saudação à bandeira. É uma necessidade para organizar a luta e para
construir uma alternativa de classe.
Não nos iludamos. O PT não recebeu nenhuma benção especial que lhe garanta
para sempre. Os últimos anos significaram um retrocesso muito grande para o
partido se tivermos sua origem como referência.
Todo o apoio recebido pelo partido contém também um forte elemento de
questionamento. O sentimento de que "são todos iguais" ganha espaço e o
resultado são milhões de trabalhadores votando nulo, em branco ou se
abstendo e muitos lutando sem uma perspectiva política clara.
Nas vésperas de seu II Congresso, não diríamos que o partido se vê diante de
uma encruzilhada. Na verdade já começou a escolher um caminho e pensamos que
esse não é o caminho correto.
O giro à direita dos últimos anos coloca em risco até mesmo os vínculos do
partido com a classe trabalhadora e seu caráter de classe.
A esquerda tradicional social-democrata na Europa, por exemplo, perdeu quase
toda sua ligação com o movimento operário. São instrumentos diretos da
burguesia e do imperialismo nos governos de inúmeros países. Basta ver sua
postura nos Bálcãs e sua política de cortes nos gastos sociais,
privatizações e ataques.
No Brasil, os rumos adotados por administrações petistas em alguns estados e
municípios têm demonstrado, no mínimo, uma grande confusão sobre o real
papel do partido.
O PT que deveria impulsionar e dirigir as lutas da classe na direção de uma
alternativa não apenas ao governo capitalista de plantão mas ao próprio
capitalismo, acaba limitando-se a tentar administrar a crise do capitalismo
melhor que os capitalistas.
A política de oposição leal e de compromisso com a governabilidade de FHC
apenas permitiu que o governo tomasse fôlego. A recusa em gritar "Fora FHC e
o FMI" atrasou a retomada de um movimento de massas contra o governo. Na
preparação da marcha à Brasília devemos agora assumir definitivamente a
tarefa de preparar pela base uma grande greve geral contra o governo e sua
política à serviço do FMI e dos tubarões capitalistas.
Nossa alternativa à crise tem necessariamente que passar pelo não pagamento
das dívidas externa e interna aos tubarões capitalistas e pela estatização
do sistema financeiro sob controle dos trabalhadores.
Também devemos aprender com os erros passados. Foi a recusa em defender
novas eleições diante da queda de Collor que abriu espaço para uma
contra-ofensiva burguesa através de FHC e o Plano Real. Dessa vez exigimos
Eleições Gerais e um governo do PT com as organizações dos trabalhadores e
sem patrões.
O PT deve encabeçar de fato a oposição a FHC pois, ao contrário de Itamar ou
Brizola e devido ao seu caráter de classe, poderá conduzir esse movimento
até as últimas conseqüências. Mas, para isso, é preciso mudar a linha geral
adotada no último período.
É nessa perspectiva que nos colocamos ao lado de muitos companheiros
socialistas do PT nos debates deste II Congresso e no dia a dia das lutas.
Ousamos dizer que, apesar dos riscos de mais retrocesso em meio ao
Congresso, a realidade da luta de classes se colocará a favor da esquerda
socialista.
Na década de 80 milhares de jovens e trabalhadores acordaram para a vida
política e buscaram no PT o instrumento para lutar contra o capitalismo. Uma
nova geração entra em cena e, com a experiência do passado, poderá avançar
na luta. Mas, para isso, precisa de um PT socialista e revolucionário.
Caso contrário, será uma geração perdida. E não podemos nos dar ao luxo de
esperar mais.
-
André Ferrari - Oposição Metalúrgica de São Paulo
José Afonso
- Eliana Oliveira
- José Henrique Lemos - militantes do PT de SP
Ramón Szermeta -diretor da UPES
- José Milton - CR-APEOESP-Cotia
Miguel Leme - CR-APEOESP-Taboão/Embú
|
 Tendência
do PT |
- Texto do SR usado no II Congresso do PT em 1999. O texto
foi retirado do site do PT.
|